[Encontro Internacional do Centenário de Fernando Pessoa, SEC, 1990, Pessoa e Verdade(s)… ou a Crítica do Abuso de Leituras Herméticas, Onésimo Teotónio Almeida, pág. 200]
Tuesday, July 15, 2008
(…) Se há uma unidade em Pessoa, esta da busca sempre racional de uma mundividência conscientemente criada a partir das tradições da sua cultura será talvez a única possível. Porque ele não a conseguiu e porque até ao fim da vida duvidou sempre e se sentiu constantemente outro, será difícil, mesmo com o que quer que haja do espólio ainda por ser revelado, conciliar uma unidade assente nos alicerces da filosofia hermética com as afirmações que mesmo na última fase da sua vida continuou ainda a fazer e que revelam que o Fernando Pessoa-plural o acompanhou sempre. (…)
(…) Interessante é distinguir em Álvaro de Campos, para lá da melodia aparente (o estilo que o diferencia), a harmonia profunda (a estrutura simbólica) que o reúne aos seus antecessores, Pessoa, Caeiro, Reis. Por trás do grito, uma mesma pulsão de apagamento e morte. As sensações a que Álvaro de Campos se entrega, ora o condensam no centro mais íntimo ora o dispersam no exterior mais interior de si mesmo. A noite, a água escura em que deseja afogar-se, é a imagem mesma da sua dissolução. Não há viagem, no sentido em que não há transformação, positiva ou negativa, para ele. Em cada impulso, em cada movimento, aquilo que se confirma é a imobilidade e a paragem do sono (não do sonho), antecessor do nada que é a morte. (…)
[Y. K. Centeno, Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros ensaios, Editorial Presença, 1988, Álvaro de Campos: a carroça de tudo pela estrada de nada, págs. 69/70]
Saturday, July 12, 2008
ENFUREÇO-ME. Queria compreender tudo, saber tudo, realizar tudo, dizer tudo, gozar tudo, sofrer tudo, sim, sofrer tudo. Mas nada disso faço, nada, nada. Fico acabrunhado pela ideia daquilo que queria ter, poder, sentir. A minha vida é um sonho imenso. Penso, às vezes, que gostaria de cometer todos os crimes, todos os vícios, todas as acções belas, nobres, grandiosas, beber o belo, o verdadeiro, o bem de só trago e adormecer em seguida para sempre no seio tranquilo do Nada.
Deixem-me chorar.(...)
Feliz do homem que pode pensar profundamente, mas sentir tão profundamente é uma maldição. Como descrevê-la? Horror sobre horror.
Há na música um pouco disto; na música é uma coisa boa, é o feminino disto.
...a indulgência de todos os meus caprichos e vontades - aliás quase nulos, consistindo, quase, no só desejo de solidão.
pp.309
pp.309
Saudades (essa palavra tão nossa)
Nunca tive saudades, porque nunca tive de que as ter e fui sempre racional em meus sentimentos. Como nada fiz da minha vida, não tenho de que recordar-me com saudade; pude ter esperanças, porque o que não existe pode ser tudo; hoje nem tenho esperanças, porque não vejo razão por que o futuro seja diferente do passado.
Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos.
Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória.
Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte.
Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos.
Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória.
Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte.
pp.321, Prosa íntima e de Autoconhecimento
Sonho..
Uma pessoa que escreveu sobre tudo, escreveu, naturalmente (e bastante) sobre o sonho.
Algumas coisas poderia ter eu escrito, não fosse o facto de não ter naturalmente uma capacidade de escrita a tal ponto elevada. Por isso limito-me a transcrever, o que já é bastante bom, tendo em conta que significa que, pelo menos, tenho acesso à leitura deste tesouro literário da humanidade.
O sonho, quando demasiado vivido, ou familiar, torna-se numa nova realidade; tiraniza como ela; deixa de ser refúgio. Os exércitos sonhados acabam por ser derrotados, como os que baqueiam e se desmoronam nos encontros e batalhas do mundo.
(...)
Repudiei o sonho como um vício de colegial ou de louco. Mas repudiei também a realidade ou, antes, me repudiou ela, não sei porquê - por incompetência, ou por desalento, ou por incompreensão. Não servi para nenhum dos dois modos de gozar - nem para o prazer do real, nem para o prazer do suposto.
Algumas coisas poderia ter eu escrito, não fosse o facto de não ter naturalmente uma capacidade de escrita a tal ponto elevada. Por isso limito-me a transcrever, o que já é bastante bom, tendo em conta que significa que, pelo menos, tenho acesso à leitura deste tesouro literário da humanidade.
O sonho, quando demasiado vivido, ou familiar, torna-se numa nova realidade; tiraniza como ela; deixa de ser refúgio. Os exércitos sonhados acabam por ser derrotados, como os que baqueiam e se desmoronam nos encontros e batalhas do mundo.
(...)
Repudiei o sonho como um vício de colegial ou de louco. Mas repudiei também a realidade ou, antes, me repudiou ela, não sei porquê - por incompetência, ou por desalento, ou por incompreensão. Não servi para nenhum dos dois modos de gozar - nem para o prazer do real, nem para o prazer do suposto.
Para onde vai a minha vida, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?
O meu destino tem um sentido e um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala,
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou; não me iguala.
Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.
(...)
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?
O meu destino tem um sentido e um jeito,
A minha vida segue uma rota e uma escala,
Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito
Daquilo que faço e sou; não me iguala.
Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.
Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.
É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.
Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.
(...)
Fernando Pessoa, 5-6-1917
(...)
Não tenho barco para a outra margem
Nem sei do rio.
Ah!E envelhece já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro, querer...
Sempre eu!Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amante má.
Tornou-me triste por ser risonho,
E não ser já.
(...)
Não tenho barco para a outra margem
Nem sei do rio.
Ah!E envelhece já tua imagem
E eu sinto frio.
Não me resigno, não me decido,
Choro, querer...
Sempre eu!Ó sorte, dá-me o olvido
De pertencer!
Enterrei hoje outra vez meu sonho
Amante má.
Tornou-me triste por ser risonho,
E não ser já.
(...)
Fernando Pessoa, 22-6-1917
Não tenho nada p'ra te dizer
Salvo que a vida já não me quer.
Não tenho nada para te ouvir.
Para quê ouvir-te?Não sei sentir...
Sofro nos sonhos, sofro na vida.
Não tenho norma nem direcção...
Levo o cadáver da fé perdida
Para o jazigo da ilusão.
Salvo que a vida já não me quer.
Não tenho nada para te ouvir.
Para quê ouvir-te?Não sei sentir...
Sofro nos sonhos, sofro na vida.
Não tenho norma nem direcção...
Levo o cadáver da fé perdida
Para o jazigo da ilusão.
Fernando Pessoa, 1-3-1917
grande falha não ter aqui assinalado no passado dia 13 de Junho o 120º aniversário de Fernando Pessoa. Mas, afinal, tenho desculpa, uma vez que estava completamente absorvida por um trabalho de Sociologia das Relações Internacionais que, diga-se, não me serviu para grande coisa além de me tirar umas belas horas de sono...mas enfim.
Então é assim, Fernando Pessoa já tem 120 anos mas continua jovem, actualizado, universal, sendo reinventado por cada pessoa a cada leitura que dele é feita. Isto para quem sabe LER. Ler não só com os olhos, mas com a cabeça e o coração e a alma, porque só assim se lê Fernando Pessoa.
Então é assim, Fernando Pessoa já tem 120 anos mas continua jovem, actualizado, universal, sendo reinventado por cada pessoa a cada leitura que dele é feita. Isto para quem sabe LER. Ler não só com os olhos, mas com a cabeça e o coração e a alma, porque só assim se lê Fernando Pessoa.

