Saturday, October 22, 2022

Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,



Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,

Espécie de acessório ou sobresselente próprio,

Arredores irregulares da minha emoção sincera,

Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.

Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.

Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconsequente,

Como de um sonho formado sobre realidades mistas,

De me ter deixado, a mim, num banco de carro eléctrico,

Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,

Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,

De haver melhor em mim do que eu.

Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,

Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,

De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,

De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,

De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.

Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,

Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,

De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —

A impressão de pão com manteiga e brinquedos,

De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,

De uma boa vontade para com a vida encostada de testa à janela,

Num ver chover com som lá fora

E não as lágrimas mortas de custar a engolir.

Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,

O emissário sem carta nem credenciais,

O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,

A quem tinem as campainhas da cabeça

Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.

Sou eu mesmo, a charada sincopada

Que ninguém da roda decifra nos serões de província.

Sou eu mesmo, que remédio!...

6-8-1931

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).

  - 49.

Monday, October 17, 2022

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA

               I

Dá-me lírios, lírios,

E rosas também.

Mas se não tens lírios

Nem rosas a dar-me,

Tem vontade ao menos

De me dar os lírios

E também as rosas.

Basta-me a vontade,

Que tens, se a tiveres,

De me dar os lírios

E as rosas também,

E terei os lírios —

Os melhores lírios —

E as melhores rosas

Sem receber nada.

A não ser a prenda

Da tua vontade

De me dares lírios

E rosas também.

                II

Usas um vestido

Que é uma lembrança

Para o meu coração.

Usou-o outrora

Alguém que me ficou

Lembrada sem vista.

Tudo na vida

Se faz por recordações.

Ama-se por memória.

Certa mulher faz-nos ternura

Por um gesto que lembra a nossa mãe.

Certa rapariga faz-nos alegria

Por falar como a nossa irmã.

Certa criança arranca-nos da desatenção

Porque amámos uma mulher parecida com ela

Quando éramos jovens e não lhe falávamos.

Tudo é assim, mais ou menos,

O coração anda aos trambulhões.

Viver é desencontrar-se consigo mesmo.

No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.

Mas gostava de te encontrar e que falássemos.

Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.

Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento

Em que pensei que nos poderíamos encontrar.

Guardo tudo,

(Guardo as cartas que me escrevem,

Guardo até as cartas que não me escrevem —

Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,

E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair

Através dele até mim!

Enfim, tudo pode ser...

És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —

E a minha visão de ti explode literariamente,

E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,

Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.

Boa noite na Austrália!

17-6-1929

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 

 - 106.