Saudades (essa palavra tão nossa)
Nunca tive saudades, porque nunca tive de que as ter e fui sempre racional em meus sentimentos. Como nada fiz da minha vida, não tenho de que recordar-me com saudade; pude ter esperanças, porque o que não existe pode ser tudo; hoje nem tenho esperanças, porque não vejo razão por que o futuro seja diferente do passado.
Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos.
Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória.
Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte.
Há quem tenha saudades do passado, só por ele ter passado, e a quem até o mal que foi parece um bem, por isso mesmo que foi e com ele o que éramos quando nos sucedeu. Nunca pude dar tanta importância à mera abstracção do tempo, que houvesse de ter pena do meu passado só por não poder tornar a tê-lo, ou só por então ser mais jovem do que hoje sou. E esse modo de ter pena do passado, qualquer, ainda que nulo, o pode ter; e repudio o que seja de todos.
Nunca tive saudades. Não há época da minha vida que eu não recorde com dissabor. Em todas fui o mesmo - o que perdeu o jogo ou desmereceu do pouco da vitória.
Tive, sim, esperanças, porque tudo é ter esperanças ou é morte.
pp.321, Prosa íntima e de Autoconhecimento


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