Monday, March 26, 2007

A Minha pátria é a língua portuguesa:
Bernardo Soares - Lvro do desassossego

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar.

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.I. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

Todas as cartas de amor são

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo reis

Quero Ignorado - Ricardo Reis

Quero ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada 'spera
Tudo que vem é grato.
"Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude."

E "a pátria" preferiu Salazar à genialidade de Fernando Pessoa. Vergonhoso. Mas é por isso, que enquanto Portugal não ouvir as suas palavras continuará a não passar de um país decadente, de esperanças vãs. continuará a ser apenas "nevoeiro".
Quanta Tristeza

Quanta tristeza e amargura afoga
Em confusão a 'streita vida!
Quanto Infortúnio mesquinho
Nos oprime supremo!
Feliz ou o bruto que nos verdes campos
Pasce, para si mesmo anônimo, e entra
Na morte como em casa;
Ou o sábio que, perdido
Na ciência, a fútil vida austera eleva
Além da nossa, como o fumo que ergue
Braços que se desfazem
A um céu inexistente.


Ricardo Reis

Wednesday, March 14, 2007

Pessoa e as viagens

(...) Assim o último dos três de nome Côrte-Real a quem o rei negou licença para partir em busca dos irmãos que não regressaram. Para partir até lá onde eles por desventura se perderam ou por ventura se quedaram. Fernando Pessoa fez disto um belo poema, talvez o mais belo poema de Mensagem. Como esse terceiro irmão somos nós todos, seres humanos; como ele também todos nós queremos partir e no-lo proíbem:

“A Deus as mãos alçamos

Mas Deus não dá licença que partamos”

Todos nós seremos portanto viajantes sem viagem. Não tanto como, também por excelência, o foi Fernando Pessoa. A viagem era a obsessão do poeta da “Ode Marítima”. Chegou, num gesto anedótico, a datar um poema de New Castle, cidade inglesa onde nunca foi.

Ficava sempre, na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa. Ficava sempre no cais. Desesperado, chamava ao chão que pisava “saudade de pedra”. E via-se a si mesmo como uma árvore que atira as suas folhas para o norte, “onde existem as cidades do futuro que nunca verei”, para o ocidente, para o oriente, sobretudo para o oriente, “onde Deus ainda existe realmente”. Uma árvore, se via assim o poeta. Uma árvore que nasce e cresce, e todos os Outonos perde as folhas, e todas as primaveras floresce, mas que fica imóvel e presa às raízes que mergulham no fundo da terra.

A viagem torna-se impossível, saudade de pedra, vento que as folhas levam. Só o viajante é real.

“O viajante sem viagem”

Boletim Informativo - Série II.Nº26.1973

Fundação Calouste Gulbenkian

Horizonte (Mensagem)

porquê em espanhol?

Fotobiografia