Wednesday, December 08, 2021

Em mim o que há de primordial é o hábito e o jeito de sonhar. BS

 L. do D. Segunda parte

Em mim o que há de primordial é o hábito e o jeito de sonhar. As circunstâncias da minha vida, desde criança sozinho e calmo, outra[s] forças talvez, amoldando-me de longe, por hereditariedades obscuras a seu sinistro corte, fizeram do meu espírito uma constante corrente de devaneios. Tudo o que eu sou está nisto, e mesmo aquilo que em mim mais parece longe de destacar o sonhador, pertence sem escrúpulo à alma de quem só sonha, elevada ela ao seu maior grau.

Quero, para meu próprio gosto de analisar-me, ir, à medida que isso me ajeite, ir pondo em palavras os processos mentais que em mim são um só, esse, o de uma vida devotada ao sonho, de uma alma educada só em sonhar.

Vendo-me de fora, como quase sempre me vejo, eu sou um inapto à acção, perturbado ante ter que dar passos e fazer gestos, inábil para falar com os outros, sem lucidez interior para me entreter com o que me cause esforço ao espírito, nem sequência física para me aplicar a qualquer mero mecanismo de entretenimento trabalhando.

Isso é natural que eu seja. O sonhador entende-se que seja assim. Toda a realidade me perturba. A fala dos outros lança-me numa angústia enorme. A realidade das outras almas surpreende-me constantemente. A vasta rede de inconsciências que é toda a acção que eu vejo, parece-me uma ilusão absurda, sem coerência plausível, nada.

Mas se se julgar que desconheço os trâmites da psicologia alheia, que erro a percepção nítida dos motivos e dos íntimos pensamentos dos outros, haverá engano sobre o que sou.

Porque eu não só sou um sonhador, mas sou um sonhador exclusivamente. O hábito único de sonhar deu-me uma extraordinária nitidez de visão interior. Não só vejo com espantoso e às vezes perturbante relevo as figuras e os décors dos meus sonhos, mas com igual relevo vejo as minhas ideias abstractas, os meus sentimentos humanos — o que deles me resta —, os meus secretos impulsos, as minhas atitudes físicas diante de mim próprio. Afirmo que as minhas próprias ideias abstractas, eu as vejo em mim, eu com uma interior visão real as vejo num espaço interno. E assim os seus meandros são-me visíveis nos seus mínimos.

Por isso conheço-me inteiramente, e, através de conhecer-me inteiramente, conheço inteiramente a humanidade toda. Não há baixo impulso, como não há nobre intuito que me não tenha sido relâmpago na alma; e eu sei com que gestos cada um se mostra. Sob as máscaras que as más ideias usam, de boas ou indiferentes, mesmo dentro de nós eu pelos gestos as conheço por quem são. Sei o que em nós se esforça por nos iludir. E assim à maioria das pessoas que vejo conheço melhor do que eles a si próprios. Aplico-me muitas vezes a sondá-los, porque assim os torno meus. Conquisto o psiquismo que explico, porque para mim sonhar é possuir. E assim se vê como é natural que eu, sonhador que sou, seja o analítico que me reconheço.

Entre as poucas coisas que às vezes me apraz ler, destaco, por isso, as peças de teatro. Todos os dias se passam peças em mim, e eu conheço a fundo como é que se projecta uma alma na projecção do Mercator, plenamente. Entretenho-me pouco, aliás, com isto; tão constantes, vulgares e enormes são os erros dos dramaturgos. Nunca nenhum drama me contentou. Conhecendo a psicologia humana com uma nitidez de relâmpago, que sonda todos os recantos com um só olhar, a grosseira análise e construção dos dramatistas fere-me, e o pouco que leio neste género desgosta-me como um borrão de tinta atravessado na escrita.

As coisas são a matéria para os meus sonhos; por isso aplico uma atenção distraidamente sobreatenta a certos detalhes do Exterior.

Para dar relevo aos meus sonhos preciso conhecer como é que as paisagens reais e as personagens da vida nos aparecem relevadas. Porque a visão do sonhador não é como a visão do que vê as coisas. No sonho, não há o assentar da vista sobre o importante e o inimportante de um objecto que há na realidade. Só o importante é que o sonhador vê. A realidade verdadeira dum objecto é apenas parte dele; o resto é o pesado tributo que ele paga à matéria em troca de existir no espaço. Semelhantemente, não há no espaço realidade para certos fenómenos que no sonho são palpavelmente reais. Um poente real é imponderável e transitório. Um poente de sonho é fixo e eterno. Quem sabe escrever é o que sabe ver os seus sonhos nitidamente (e é assim) ou ver em sonho a vida, ver a vida imaterialmente, tirando-lhe fotografias com a máquina do devaneio, sobre a qual os raios do pesado, do útil e do circunscrito não têm acção, dando negro na chapa espiritual.

Em mim esta atitude, que o muito sonhar me enquistou, faz-me ver sempre da realidade a parte que é sonho. A minha visão das coisas suprime sempre nelas o que o meu sonho não pode utilizar. E assim vivo sempre em sonhos, mesmo quando vivo na vida. Olhar para um poente em mim ou para um poente no Exterior é para mim a mesma coisa, porque vejo da mesma maneira, pois que a minha visão é talhada mesmamente.

Por isso a ideia que faço de mim é uma ideia, que a muitos parecerá errada. De certo modo é errada. Mas eu sonho-me a mim próprio e de mim escolho o que é sonhável, compondo-me e recompondo-me de todas as maneiras até estar bem perante o que exijo do que sou e não sou. Às vezes o melhor modo de ver um objecto é anulá-lo mas ele subsiste, não sei explicar como, feito de matéria de negação e anulamento; assim faço a grandes espaços reais do meu ser, que suprimidos no meu quadro de mim, me transfiguram para a minha realidade.

Como então me não engano sobre os meus íntimos processos de ilusão de mim? Porque o processo que arranca para uma realidade mais que real um aspecto do mundo ou uma figura de sonho, arranca também para mais que real uma emoção ou um pensamento; despe-o portanto de todo o apetrecho de nobre ou puro quando o que quase sempre acontece, o não é. Repare-se que a minha objectividade é absoluta, a mais absoluta de todas. Eu crio o objecto absoluto, com qualidades de absoluto no seu concreto. Eu não fugi à vida propriamente, no sentido de procurar para a minha alma uma cama mais suave, apenas mudei de vida e encontrei nos meus sonhos a mesma objectividade que encontrava na vida. Os meus sonhos — noutra página estudo isto — erguem-se independentes da minha vontade e muitas vezes me chocam e me ferem. Muitas vezes o que descubro em mim me desola, me envergonha (talvez, por um resto de humano em mim — o que é a vergonha?) e me assusta.

Em mim o devaneio ininterrupto substituiu a atenção. Passei a sobrepor às coisas vistas, mesmo quando já sonhadamente vistas, outros sonhos que comigo trago. Desatento já suficientemente para fazer bem aquilo a que chamei ver as coisas em sonho, ainda assim, porque essa desatenção era motivada por um perpétuo devaneio e uma, também não exageradamente atenta, preocupação com o decurso dos meus sonhos, sobreponho o que sonho ao sonho que vejo e intersecciono a realidade já despida da matéria com um imaterial absoluto.

Daí a habilidade que adquiri em seguir várias ideias ao mesmo tempo, observar as coisas e ao mesmo tempo sonhar assuntos muito diversos, estar ao mesmo tempo sonhando um poente real sobre o Tejo real e uma manhã sonhada sobre um Pacífico interior; e as duas coisas sonhadas intercalam-se uma na outra, sem se misturar, sem propriamente confundir mais do que o estado emotivo diverso que cada um provoca, e sou como alguém que visse passar na rua muita gente e simultaneamente sentisse de dentro as almas de todos — o que teria que fazer numa unidade de sensação — ao mesmo tempo que via os vários corpos — esse tinha que os ver diversos — cruzar-se na rua cheia de movimentos de pernas.

s.d.

Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.

  - 374.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Tuesday, December 07, 2021

Com as malas feitas e tudo a bordo

 Álvaro de Campos

Com as malas feitas e tudo a bordo

Com as malas feitas e tudo a bordo

E nada mais a esperar da terra que deixamos,

Já com os trajes moles característicos dos viajantes, debruçados da amurada

Digamos adeus com um levantar da alegria ao que fica,

Adeus às afeições, e aos pensamentos domésticos, e às lareiras, e aos irmãos,

E enquanto se abre o espaço entre o navio lento e o cais

Gozemos uma grande esperança indefinida e arrepiada,

Uma trémula sensação de futuro.

Eis-nos a caminho, e quase a meio do rio

Aumenta a nitidez deixada na terra

Dos alpendres e dos guindastes ou das mercadorias descarregadas

E não é a nós, felizmente, que diz adeus aquela família

Aglomerada no extremo do cais, com um cuidado subjectivo e visível

De não cair dentro de água no meio da emoção.

Olhemos para os companheiros de bordo. Como são diversos!

Uns vão em trânsito. Não é com eles nenhuma destas despedidas.

Outros, com um ar palidamente sorridente de não querer chorar,

Acenam com um gesto deselegante e pouco afoito com os lenços

Para lenços que se acenam de outra gente que ficou no cais

No cais — ah reparem — subitamente tão mais longe do que notámos.

A amargura alegre da ida,

O sabor especial a começo de viagem marítima, a mistura com nossos sentidos

De cheiro das malas, de cheiro a navio, de cheiro a comida de bordo,

E a nossa alma é um composto confuso de cheiros e sabores

E tudo é a viagem indefinida que faremos vista através do paladar e do olfacto,

Tudo é a incerteza sensual da vida sentida pela espinha abaixo...

E nós não deixamos ninguém...

Se deixássemos, ah os lenços que lindos!, o navio que se afasta

Afastar-se-ia de mais do que da terra;

Afastava-se do nosso passado todo, de nós-mesmos, ficados no cais e aqui a caminho,

Do sentimento doméstico com que beijamos a nossa mãe,

Da alegria com que às vezes, brincando, arreliamos as nossas irmãs...

Partir! partir é viver excessivamente. O que é tudo senão partir...

Todos os dias do cais da nossa vida nos separamos, navios (...),

E vamos para o futuro como se fossemos para o Mistério,

Mas que sabemos nós para onde vamos, ó dor, e o que somos,

E que proteico e fluido Deus é tutelar das partidas?

Olha, de longe, já os guindastes ainda mexendo,

Olha as figuras no cais, negras figuras, manchadas de lenços que se acenam,

Olha os casarões de zinco ondulado dos cais e docas, às portas deles,

O sossego destacado e acostumado a isto dos empregados e dos carregadores...

Vai tal angústia, tão inexplicável angústia na minha alma,

Que não sei como têm coragem, vendo que eu grito assim, para estarem parados

No cais, tranquilamente os descarregadores e os guardas fiscais!

Bebedeira da vida... ligeiro nervoso nas nossas sensações...

Perturbação alcoólica dos nossos sentidos íntimos...

A nossa alma sai um pouco para fora do seu lugar

E as rodas da nossa vida quotidiana começam a cambalear como se fossem sair do eixo...

Pelo convés fora a gente que já está acostumada a estar aqui a bordo

Está alheia a isto e interessada contudo

(Ah [enquanto eu atirar meu directo olhar, nunca?] olhar tranquilo,

Fremem em mim os nervos vibrados de todos que vejo que sentem,

Correm-me dos olhos as lágrimas de todos que choram porque se separam,

Tenho nas mãos os gestos circulares de mãos saudosas já que acenam com lenços,

Sou todas as penas que toda esta gente tem de se ir embora...

Sou as esperanças que levam consigo e agora lhes fazem mais trémula a dor da partida,

Estou [...] por dentro deles todos, na roupa que compraram para a viagem,

Nos pequenos objectos que, na véspera («Lá me ia esquecendo» dizem, e era uma coisa inútil)

Compraram de noite numa loja feérica cheia de malas de couro e que ia fechar...

Ah, com todos os nervos de toda a gente, os meus nervos vibram...

E com os estremeções das máquinas do navio, e com o estralejar da bandeira ao vento

E com o túmido tremor das enxárcias e com o ondular dos toldos

E toda a minha alma é uma dolorosa vibração física em ritmos de mim).

Vida cosmopolita atirada aos quatro ventos...

Vida de tanta gente real a bordo de tantos navios...

Embriaguez de lidar com outra gente e saber que eles existem e têm vidas passadas, preparadas, gozadas,

Sofridas, e tão curioso o traje, interessante a moral, de cada pessoa,

E tão cheio de enigmas e de metafísicas o modo como falam, como riem, como arranjam o cabelo, como se entendem uns com os outros...

Sensação metafísica das outras pessoas e das suas realidades, e do seu décor...

Ó doença humanitária dos meus nervos vibrando cheios de outras pessoas,

Volúpia de gozar e sofrer através de hipóteses dos outros...

E eu ser só eu, só eu eternamente, e não ter outras vidas senão a minha!

Como se tocassem o fado de repente à meia-noite numa aldeia na América do Norte,

Um fatalismo metafísico com os nervos de toda a gente vibra em mim a cada momento

Quando reparo cosmopoliticamente nos outros, e ouço várias línguas

E vejo nos gestos e nos trajes — que parecem idênticos mas são tão diferentes — várias pátrias, vários costumes,

E entrevejo lares diversos, vidas comerciais complexas, amores desconhecidos, mas de cidades que desconheço,

Tudo como num animatógrafo num teatro do tamanho do Universo,

Onde se soubesse que acabava o mundo e saindo para fora,

Não há casa para onde se regresse, nem automóvel que nos leve para um lugar qualquer,

Mas a Noite Absoluta, e Deus talvez como uma Lua Enorme significando

IV

Profunda e religiosa solidão do indefinido Universo,

Vastidão enorme, nem larga nem alta nem comprida, mas só espaço, o constelado espaço

Deste mistério azul-negro e estrelado onde a terra é uma coisa

E as vidas aparecem como lanchas à superfície da água...

Raios de sol entrando pela janela entreaberta no quarto da casa de campo,

Meios-dias nas eiras abandonadas,

Tardes noites para encontros em outras margens de rios,

Fazei do nosso conseguimento natural um sossego, uma capa

E descei sobre a minha alma...

Vós, ó campos repousados e incivilizados

Vós ó rios tranquilamente passando por uma inquietação,

Vós ó jardins públicos às tardes visitados

Vós ó tanques de quintas, vós ó lareiras em solares,

E disperso arfar de sedas pretas o silêncio da noite.

s.d.

Álvaro de Campos - Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. 

 - 29.