Sunday, October 14, 2007

“Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...”

É mesmo verdade. Sinto tanto que é verdade. Tão verdade que até dói.

Ao longe, ao luar,

No rio uma vela

Serena a passar,

Que é que me revela?

Não sei, mas meu ser

Tornou-se-me estranho,

E eu sonho sem ver

Os sonhos que tenho.

Que angústia me enlaça?

Que amor não se explica?

É a vela que passa

Na noite que fica.

É muito claro. E muito elucidativo acerca das batalhas que travo cá dentro neste período conturbado da minha existência.

Põe-me as mãos nos ombros...

Beija-me na fronte...

Minha vida é escombros,

A minha alma insonte.

Eu não sei porquê,

Meu desde onde venho,

Sou o ser que vê,

E vê tudo estranho.

Põe a tua mão,

Sobre o meu cabelo...

Tudo é ilusão,

Sonhar é sabê-lo.

Este poema foi igualmente

Tenho sonhado muito, ultimamente. Se calhar por isso tenho a percepção que nada do que me disseram foi verdade e de que criei mentiras para me poder agarrar a qualquer coisa durante um período

indeterminado de tempo.

E sinto verdadeiramente a minha vida como um amontoado de escombros e não sei quando foi que se voltou a transformar nisso. Pensava que tinha conseguido fazer dela, da vida, uma estrutura sólida e afinal desmoronou-se completamente. Outra vez. Agora vou voltar a procurar sobreviventes debaixo dela. Talvez os sonhos, talvez a vontade, talvez a força. Ou talvez fiquem para sempre desaparecidos, soterrados no meu interior. Resta-me esperar que ainda haja alguém que me ponha as mãos nos ombros, ou simplesmente que

me dê a mão e me ajude a caminhar… ou que me dê o ombro para eu poder chorar as reconquistas de tantas vezes, outras tantas (ou talvez mais) perdidas.

O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.



A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto alguém.

Essas coisas todas -

Essas e o que faz falta nelas eternamente -;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.




Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada -

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser...




E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,


Um supremíssimo cansaço.

Íssimo, íssimo. íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos





 
               Também estou cansada. Sim, tão cansada que "até a vida me farta". Queria o meu habitat de volta (pensei que podia ter outros, mas se calhar não), queria a minha casa, o meu quarto, a minha cama. a minha janela...
               Aqui também tenho tudo isto, mas não é o mesmo. Simplesmente não sinto que pertença aqui ou que qualquer destas coisas me pertença. Esta casa, este quarto, esta cama e esta janela são diferentes das minhas. Em tudo. Nos tamanhos, nos feitios, no que representam...e tanto que representam...
               Se eu pudesse ia agora a voar até ao lugar que habitualmente apelido carinhosamente de fim do mundo. Quando chegasse lá ia respirar fundo (sim, lá o ar também é diferente, é mais puro, mais ar no verdadeiro sentido da palavra) e gritar directamente de dentro de mim (do diafragma, entenda-se. E talvez um bocadinho do coração) que adoro estar lá. Podia dizer "Aqui sou feliz!" e estaria a dizer a verdade.
               Aqui, onde me encontro agora, não posso dizer que o seja. Por vezes quase penso que sou...ou posso vir a ser, quem sabe...

Enfim...estou tão cansada que o tédio nem me deixa ter capacidade para expressar o quão cansada estou. E pior do que isto, é não ter a companhia do que me pode entusiasmar, não poder sequer fazer algo que me dá a sensação de estar realmente e aprender alguma coisa, a tornar-me alguém (?). Pois, quem ler isto vai pensar "Ninguém te manda ser estúpida e deixar o Fernando Pessoa em casa". Pode dizer-se que concordo inteiramente. Mas pelo menos esse resultado da minha estupidez é temporário e será corrigido já na próxima semana.

               Quem dera que todos os erros derivados da estupidez fossem reversíveis ou apenas temporários. Quem dera que tivesse coragem para fazer dos meus erros apenas pequenos desvios temporários e que conseguisse voltar a encontrar o caminho quando me perco.
        Infelizmente não tenho inteligência para isso. Nem sequer tenho inteligência para compreender porque é que se tanta gente muda de rumo eu não posso mudar também.
        Quem sabe se no fundo toda a minha frustração não resulta da falta de inteligência para compreender o mundo em que nasci, e as pessoas que nele coabitam comigo (embora por vezes me sinta em relação a elas qualquer espécie de extra-terrestre que saiu da sua órbita e veio aterrar direitinho no planeta Terra). Embora não me sentindo propriamente em casa adoro este planeta e adoro viver nele e respirar e uma série de coisas que ele nos permite fazer.
               E é pena gostar tanto de uma coisa e não nos conseguirmos inserir e conformar com as limitações que ela nos impõe… Mas a Terra não impõe limitações a ninguém. Temos espaço suficiente para correr, para navegar, até para semi-voar. Só não temos asas nossas, mas isso talvez a evolução da ciência venha um dia a permitir.
               Enquanto isso, digamos que a humanidade está confinada ao espaço terrestre (embora já tenhamos, ou não, chegado à lua) e eu estou confinada a uma cidade que adoro mas que não me retribui, que me faz sentir estranha, que me faz pensar que mais uma vez meti-me pelo atalho errado e possivelmente vim dar a um beco sem saída. É uma pena. Mas ainda maior pena é este cansaço que ela me provoca, este torpor que me faz sentir como se carregasse todo o Planeta às costas e tivesse no mínimo mais uns cem anos.
               (Alguém vem tirar-me daqui?)