(…) Interessante é distinguir em Álvaro de Campos, para lá da melodia aparente (o estilo que o diferencia), a harmonia profunda (a estrutura simbólica) que o reúne aos seus antecessores, Pessoa, Caeiro, Reis. Por trás do grito, uma mesma pulsão de apagamento e morte. As sensações a que Álvaro de Campos se entrega, ora o condensam no centro mais íntimo ora o dispersam no exterior mais interior de si mesmo. A noite, a água escura em que deseja afogar-se, é a imagem mesma da sua dissolução. Não há viagem, no sentido em que não há transformação, positiva ou negativa, para ele. Em cada impulso, em cada movimento, aquilo que se confirma é a imobilidade e a paragem do sono (não do sonho), antecessor do nada que é a morte. (…)
[Y. K. Centeno, Fernando Pessoa: Os Trezentos e outros ensaios, Editorial Presença, 1988, Álvaro de Campos: a carroça de tudo pela estrada de nada, págs. 69/70]


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