Pessoa e as viagens
(...) Assim o último dos três de nome Côrte-Real a quem o rei negou licença para partir em busca dos irmãos que não regressaram. Para partir até lá onde eles por desventura se perderam ou por ventura se quedaram. Fernando Pessoa fez disto um belo poema, talvez o mais belo poema de Mensagem. Como esse terceiro irmão somos nós todos, seres humanos; como ele também todos nós queremos partir e no-lo proíbem:
“A Deus as mãos alçamos
Mas Deus não dá licença que partamos”
Todos nós seremos portanto viajantes sem viagem. Não tanto como, também por excelência, o foi Fernando Pessoa. A viagem era a obsessão do poeta da “Ode Marítima”. Chegou, num gesto anedótico, a datar um poema de New Castle, cidade inglesa onde nunca foi.
Ficava sempre, na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa. Ficava sempre no cais. Desesperado, chamava ao chão que pisava “saudade de pedra”. E via-se a si mesmo como uma árvore que atira as suas folhas para o norte, “onde existem as cidades do futuro que nunca verei”, para o ocidente, para o oriente, sobretudo para o oriente, “onde Deus ainda existe realmente”. Uma árvore, se via assim o poeta. Uma árvore que nasce e cresce, e todos os Outonos perde as folhas, e todas as primaveras floresce, mas que fica imóvel e presa às raízes que mergulham no fundo da terra.
A viagem torna-se impossível, saudade de pedra, vento que as folhas levam. Só o viajante é real.
“O viajante sem viagem”
Boletim Informativo - Série II.Nº26.1973
Fundação Calouste Gulbenkian


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