A liberdade é a possibilidade do isolamento. [relfexões em tempo de pandemia]
A liberdade é a possibilidade do isolamento. És livre se podes
afastar-te dos homens, sem que te obrigue a procurá-los a necessidade de
dinheiro, ou a necessidade gregária, ou o amor, ou a glória, ou a curiosidade,
que no silêncio e na solidão não podem ter alimento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.
Podes ter todas as grandezas do espírito, todas da alma: és um escravo nobre,
ou um servo inteligente: não és livre. E não está contigo a tragédia, porque a
tragédia de nasceres assim não é contigo, mas do Destino para si somente. Ai de
ti, porém, se a opressão da vida, ela própria, te força a seres escravo. Ai de
ti se, tendo nascido liberto, capaz de te bastares e de te separares, a penúria
te força a conviveres. Essa, sim, é a tua tragédia, e a que trazes contigo.
Nascer liberto é a maior
grandeza do homem, o que faz o ermitão humilde superior aos reis, e aos deuses
mesmo, que se bastam pela força, mas não pelo desprezo dela.
A morte é uma libertação
porque morrer é não precisar de outrem. O pobre escravo vê-se livre à força dos
seus prazeres, das suas mágoas, da sua vida desejada e contínua. Vê-se livre o
rei dos seus domínios, que não queria deixar. As que espalharam amor vêem-se
livres dos triunfos que adoram. Os que venceram vêem-se livres das vitórias
para que a sua vida se fadou.
Por isso a morte enobrece,
veste de galas desconhecidas o pobre corpo absurdo. É que ali está um liberto,
embora o não quisesse ser. É que ali não está um escravo, embora ele chorando
perdesse a servidão. Como um rei cuja maior pompa é o seu nome de rei, e que
pode ser risível como homem, mas como rei é superior, assim o morto pode ser
disforme, mas é superior, porque a morte o libertou.
Fecho, cansado, as portas
das minhas janelas, excluo o mundo e um momento tenho a liberdade. Amanhã
voltarei a ser escravo; porém agora, só, sem necessidade de ninguém, receoso
apenas que alguma voz ou presença venha interromper-me, tenho a minha pequena
liberdade, os meus momentos de excelsis.
Na cadeira, aonde me
recosto, esqueço a vida que me oprime. Não me dói senão ter-me doído.
s.d.
Livro do Desassossego por
Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de
Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do
Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.
- 456.
"Fase
confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do
Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins:
Europa-América, 1986.


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