DACTILOGRAFIA
Traço sozinho, no meu cubículo de
engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente
sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de
escrever.
Que náusea da vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos
e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro
de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu
sonho,
Eram grandes paisagens do Norte,
explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos
de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro.
O tic-tac estalado das máquinas de
escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na
infância,
E que continuamos sonhando, adultos num
substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em
convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num
caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas
não ler;
Grandes páginas de cores para recordar
mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer
dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na
outra...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente
sinistro.
Ergue a voz o tic-tac estalado das
máquinas de escrever.
19-12-1933
Poesias de Álvaro de Campos. Fernando
Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).
- 301.
1ª publ. in Presença, 2ª série, nº1. Coimbra:
Nov. 1939.


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