Sunday, November 26, 2006


Liberdade(na voz de João Villaret)


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

1 Comments:

Blogger Hugo da Graça Pereira said...

A elevação do simples,do natural. A constatação de que o que realmente é belo "não tem pressa".
E grandes são as crianças (de espírito entenda-se) sem as quais o sol seria baço, o luar crasso, os rios secos e as flores murchas.

Ah, e claro que o Villaret é aquela base que já todos sabemos =)

5:20 AM  

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