Tuesday, November 07, 2006

pessoaeeu

Hoje tive uma conversa...

Cheguei a casa mais tarde do que a hora a que devia ter chegado.Mas não me arrependo. De facto, é neste aspecto que é útil a minha racionalidade por vezes exagerada, porque pelo menos me permite nunca me arrepender de nada do que digo ou faço.Ou pelo menos acreditar que não me arrependo. Mas como só me interessa aquilo em que acredito, assim estou bem.

Cheguei mais tarde porque estive à conversa com o meu grande amigo Bruno, a debater precisamente as coisas em que eu acredito (ou nas quais quero acreditar?). Estava complicado aquilo porque nem ele queria perceber o que eu lhe dizia nem eu queria admitir que ele tivesse razão. E continuo a não querer.Não, porque não acho realmente que ele tenha razão.

De qualquer modo, tendo surgido no contexto da conversa ele virou-se para mim e perguntou-me "então porque é que não te matas?", ao que eu respondi: "porque não tenho coragem". E a minha resposta disse-a com a noção do que cada palavra significa. Não teve nada de impulsivo, impensado ou irracional.Como aliás não o tem nada daquilo que eu digo ou escrevo. O que faço talvez, por vezes.

Mas é crítico que a uma semana de fazer dezassete anos eu esteja a responder isto à pessoa que melhor me conhece ( e mais uma vez não estou nem a exagerar nem a escrever irreflectidamente) e para quem não tenho segredos, apesar da ausência de entrega total da minha parte nas relações.

Não tenho coragem.E isso é que torna ainda mais revoltante o facto de estar viva e ter a vida que tenho,já que é a unica situação em que algo (o medo?) age sobre mim e não posso controlar o curso dos acontecimentos.Eu quero mandar na minha vida, o que certamente inclui determinar quando é que ela acaba. No caso, não passará de uma decisão impossível de levar a cabo dada a falta de coragem. O que vale é que há pessoas que dão uma ajudinha no sentido de a minha decisão ser executada mais rapidamente do que eventualmente a natureza queira.

Se te queres matar, por que não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!

De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por atores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fím?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E, de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!

Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é coisa depois da qual nada acontece aos outros...

Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...

Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste.
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência! ...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?

Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?

Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?

És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjetividade objetiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?

Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente,
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células noturnamente conscientes
Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atômica das coisas,
Pelas paredes turbihonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...

Álvaro de Campos


"Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. "

1 Comments:

Blogger Hugo da Graça Pereira said...

Não sabia se havia de comentar este post...e embora tenha decidido faze-lo sinto-me mal. Senti-me um intruso ao lê-lo por ter a completa noção de que ele não era para mim, de que estava a invadir "propriedade privada". Contudo comento porque não poderia deixar de comentar...(fraco argumento este)...todavia assim e.
Este post espantou-me deveras, mas não me surpreendeu. Não me surpreendeu porque os sentimentos que aqui expressas não me eram desconhecidos; já os tinha entrevisto, embora não se possa dizer que os sabia existir, porque o saber exige certeza e essa eu não tinha. E daí vem o meu espanto, porque essa certeza nunca existiu precisamente por não te abrires com muita facilidade; mas agora leio aqui um texto teu escrito com uma tal abertura de sentimento que não te julgava capaz. Espantaste-me! E donde veio o meu espanto veio também a culpa, porque esta abertura, sei-o, não era para mim.

5:41 AM  

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